"Todas nós temos anseio pelo que é selvagem. Existem poucos antídotos aceitos
por nossa cultura para esse desejo ardente. Ensinaram-nos a ter vergonha desse tipo
de aspiração. Deixamos crescer o cabelo e o usamos para esconder nossos
sentimentos. No entanto, o espectro da Mulher Selvagem ainda nos espreita de dia e
de noite. Não importa onde estejamos, a sombra que corre atrás de nós tem
decididamente quatro patas."

CLARISSA PINKOLA ESTÉS, Ph.D. Cheyenne Wyoming

sexta-feira, 27 de julho de 2012


by Cáh


Tenho um coração ousado, eu sei. E com a mesma força que esta ousadia pulsando dentro do peito me traz alegria, me faz tropeçar num punhado de mágoas. Mas, apesar de tantas histórias frustradas, não trocaria este coração corajoso por nada. [Cáh] 


O problema não é você ir embora. Nem levar junto a sua mania engraçada de imitar as pessoas, e levar seu mau humor sexy e sem pudores. Não é você tirar sua toalha do meu banheiro, seu cheiro do meu travesseiro, a sua boca da minha nuca. O problema não é você colocar na mala aqueles CDs que eu aprendi a gostar e escutar repetidas vezes, nem diminuir a louça da pia, nem diminuir a roupa suja pra lavar. Nem diminuir o barulho dentro do meu peito.
O problema é o vazio que vai ficar na sua cadeira na hora do almoço. E como eu vou fazer com o costume de colocar dois pratos, dois garfos, duas facas, duas medidas. E como vou olhar e fazer piada com a nossa casa pequena, a nossa vida pequena e nosso amor tão grande, sem você pra dizer que sou a pior pessoa do mundo para fazer piadas. Que sou sem graça e acho todo mundo desinteressante.
O problema é o que eu vou fazer quando ficar frio e a coberta não for o suficiente. É a falta monstruosa que vou sentir de te abraçar até amassar a sua camisa, e ver seu olhar briguento, e sentir suas mãos embrulhando toda a minha existência, esmagando cada ossinho do meu corpo como se eu estivesse sendo engolida pelo seu afeto temporário.
O problema serão os passeios que ficarão escassos até deixarem de existir, os sorrisos que ficarão escassos até deixarem de existir, a minha existência que ficará escassa até que eu deixe de existir.
É aprender a andar pela casa de meias, sozinha. A tomar café da manhã sozinha. Respirar sozinha. Amar profundamente sozinha. Ver a minha vida ficar superficial a ponto de me sentir de plástico. E não chorar mais porque serei de plástico, e não sonhar mais porque serei de plástico.
Ver meu sonho de menina romântica virar um absurdo de menina babaca e junto com as minhas frustrações, jogar tudo no lixo como restos de comida. Olhar pela janela e achar o céu estúpido e sem graça.
Não conseguir mais notar os detalhes, não ser capaz mais de sentir o vento como um abraço de Deus. O problema não é você ir embora. É não me levar com você.

Camila Heloíse